Dia duro. Na verdade, semanas muito duras. Foram vários daqueles dias em que meu estoque de compaixão vinha se esgotando muito antes do dia terminar. Pacientes graves, um atrás do outro, entravam e saíam do consultório, com problemas tão complexos que eu mal conseguia respirar entre as consultas. Metástases no cérebro. Sangramentos no estômago. Crises de ansiedade.

Aumento das metástases no fígado. Um câncer descoberto no meio da gravidez. Eu olhava para aquelas pessoas, para seus olhos assustados ou suas mãos tremendo, e me sentia mortalmente incapaz. Não conseguia alcançar, com meus parcos recursos, o tamanho do seu sofrimento. Não me sentia digna da responsabilidade que elas colocavam em minhas mãos. Estava emocionalmente exausta.

Em linguagem técnica, chamamos isso de fadiga por compaixão. Acontece quando dedicamos ao outro um recurso que nos é finito, e não nos damos conta disso. O efeito colateral é óbvio: começamos a bloquear nossa capacidade de compreender o sofrimento do outro, e nossa resposta a ele passa a ser cada vez menos adequada. Perdemos a paciência com maior facilidade, nos irritamos por pouco, sentimos um cansaço incontrolável nos consumindo já nas primeiras horas do dia.

Os “remédios”, ao que parece, são muitos: férias, atividades de lazer, distrair-se em outros contextos, terapia… nada que me fosse viável para já, entre uma consulta e outra.

Foi nesse contexto difícil que me apareceu Dona Maria Augusta, com seus quase 70 anos, se queixando dos efeitos colaterais da quimioterapia, que ela vinha recebendo há vários meses, com excelente resposta (as metástases em seu fígado tinham desaparecido). Dona Maria entrou no consultório logo atrás do marido, também de idade, o qual já veio me dando o aviso: “Ela não está bem não, doutora…”

Meu primeiro pensamento foi de que eu não daria conta da Dona Maria. Idosa, debilitada, com um câncer avançado, e passando mal… Mas eu não tinha outra opção que não fosse escutá-la. Ouvi Dona Maria falando sobre a diarreia contínua, que vinha debilitando seu corpo e que só cessava quando ela interrompia os comprimidos da quimioterapia. Registrei a perda de peso.

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Vi a pele fina das suas mãozinhas, avermelhadas e doloridas, resultantes daqueles mesmos comprimidos, e que vinham atrapalhando seu crochê e encurtando suas caminhadas. Respirei, aliviada: “Graças a Deus que é só isso. Acho que essa eu consigo resolver.” E, depois de explicar rapidamente aos dois que bastava atrasar um pouco o início da próxima quimioterapia e reduzir a dose dos comprimidos, fui encaminhando Dona Maria até a porta do consultório, já pensando no paciente seguinte. Foi então que ela parou na porta e, sem mais nem menos, me abraçou pela cintura (ela é minúscula, da altura da minha filha de 11 anos), enfiando os cabelos desgrenhados sob meu queixo, e agradeceu de um jeito que me deixou tão surpresa quanto emocionada. “Obrigada, doutora, muito obrigada”.

– Obrigada pelo que, Dona Maria? Eu só ajustei a dose do seu remédio!

E ela, tão frágil que nem sei descrever seus olhos naquele momento:

– Desculpa a emoção, doutora, é que vim pensando que ia ter que parar o tratamento, que está me fazendo tanto bem. Sem ele, eu sei que ia morrer muito rápido. Obrigada por me dar essa chance.

Depois que ela saiu, fiquei ali sentada, eu e meu coração cansado, que ela tinha consertado com algumas poucas frases e um abraço apertado. Eu não tinha ideia de que algo que era para mim uma simples obrigação podia ter um significado tão mais bonito para ela. Foi assim, deixando que Dona Maria tocasse meu coração, que descobri que a gratidão pode ser bem mais eficaz do que férias, diversão ou qualquer antidepressivo. A gratidão, agora, é toda minha.

Fonte: No Final do Corredor

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ana ana lucia coradazzi
Sou médica oncologista clínica. Há alguns anos decidi complementar minha formação através de uma especialização em Cuidados Paliativos, e desde então minha vida nunca mais foi a mesma. Aprendi que a morte não precisa ser tão triste, tão amarga. E que todo sofrimento pode ser amenizado através da empatia e do apoio incondicional. O convívio diário com pacientes portadores de câncer é algo tão valioso que, a meu ver, tem que ser compartilhado.