Gisele* tinha 34 anos (apenas 34!) quando a conheci. Chegou acompanhada do esposo, Maicon*, com uma história nada fácil para contar. Eles se conheciam há muitos anos, numa relação de parceria que englobava vários aspectos de suas vidas. O que começou com uma amizade de quase uma década acabou virando namoro, e poucos meses depois eles decidiram se casar e iniciar uma família (ambos queriam muito ter filhos).

Apenas quatro meses tinham se passado desde o casamento quando Gisele acordou com a mama direita inchada e vermelha, e buscou avaliação médica. Foi quando o diagnóstico do câncer de mama caiu em seu colo, como uma bomba atômica, arremessando seus planos para todos os lados. O enorme medo da possibilidade de não poderem ter filhos após o tratamento oncológico levou os dois a se engajarem em procedimentos para congelamento dos óvulos dela, pensando numa possível fertilização in vitro no futuro, o que incluiu a administração de hormônios e diversos exames, enquanto o nódulo da mama continuava crescendo. Foi no meio desse caos que ela veio me procurar.

A primeira coisa que vi quando Gisele entrou no consultório foi seu sorriso, e toda a doçura que o tal sorriso deixava transparecer. As mãos entrelaçadas com o marido denunciavam sua preocupação, assim como seu olhar um tanto assustado. Mas o sorriso dela parecia ter sido desenhado para dissolver a tensão, qualquer que fosse o motivo. Logo na primeira consulta percebi o quanto seria especial cuidar dela… e também o quanto seria difícil.

Os exames solicitados pelo mastologista mostravam a possibilidade de metástases no fígado, o que comprometeria definitivamente a vida deles. Mas Gisele ainda não sabia disso. Fiquei ali sentada, ouvindo os dois falarem sobre como o sonho de serem pais teria que ser adiado, e como estavam preparados para postergar seus planos em nome da saúde dela. Vi os dois trocarem olhares de cumplicidade, e notei o jeito carinhoso com que Maicon falava com ela. Foi impossível para mim, naquele primeiro encontro, falar tudo o que imaginei que viria pela frente… Pedi os exames que estavam faltando e rezei para que as metástases no fígado não se confirmassem.

Infelizmente, minhas preces não foram atendidas, e quando Gisele voltou as notícias que eu tinha para ela não eram nada boas. A doença já tinha comprometido tanto o fígado quanto os linfonodos no mediastino dela, o que significava que as chances de cura eram remotas. Além disso, era o ponto final dos seus planos de ser mãe. Lembro bem desse dia. Da minha angústia vendo os exames antes da consulta. Lembro da minha boca seca, e também de ter feito mais uma prece, dessa vez para que alguém iluminasse minhas palavras.

Decidi dar um passo de cada vez. Falei sobre as lesões no fígado, a necessidade da quimioterapia, as boas chances de melhora, apesar de não haver possibilidade realista de cura. Gisele e Maicon choraram muito comigo no consultório. Lágrimas de tristeza, de decepção, de medo… mas também de gratidão por estarem juntos. Para cada má notícia, vinha uma palavra de apoio (de um lado e do outro). Para cada momento de medo, vinha um gesto de carinho. Um passo de cada vez.

Já se passaram mais de 3 anos desde esse dia. O percurso até aqui não tem sido fácil, para nenhum de nós, mas a cada passo do caminho minha admiração por eles se expande. Foram inúmeros os atos de coragem dos dois durante esse tempo. Vi a força dela quando conversamos sobre a necessidade de retirar os ovários como parte do tratamento, o que significaria encerrar em definitivo a possibilidade de uma gravidez. Vi seu desespero quando foram diagnosticadas metástases no cérebro, mas também a vi respirando fundo para enfrentar mais esse obstáculo, e seja o que Deus quiser.

Eu estava lá quando decidimos fazer uma cirurgia na mama, único sítio ativo da doença após alguns meses de tratamento, e também estava lá quando uma complicação da cirurgia a levou às pressas de volta para o centro cirúrgico, para desespero do Maicon. Vi inúmeras vezes o medo, a incerteza, a ansiedade nos olhos dos dois. Mas nunca, nem uma vez sequer, deixei de ver o sorriso dela. Às vezes mais tímido, às vezes receoso, muitas vezes com pitadas de tristeza, mas era aquele mesmo sorriso, com aquela mesma doçura. Também vi de perto a generosidade dela, manifestada na preocupação com o risco da irmã também desenvolver a doença. Aprendi com a Gi o quanto podemos preservar o que temos de melhor, mesmo em meio ao caos e à escuridão (e como ela é boa nisso!). E aprendi com o Maicon o quanto podemos fazer aflorar o melhor do outro, simplesmente por nos mantermos ao lado, haja o que houver. Tem gente que chama isso – vejam só! – de amor.

Hoje a Gi está muito bem. Segue em tratamento, a doença está sob controle, e isso significa que este é um ótimo momento para celebrar. Eles, tão jovens que são, já sabem muito bem disso. Exposição de motos? Vamos lá! Show do Capital Inicial? Opa, claro! Tomar um chope (ou vários) com os amigos? Demorou! E é assim, vivendo um dia de cada vez, agradecendo o que temos hoje para poder enfrentar o que quer que aconteça amanhã, que se desenha uma vida plena apesar das limitações que ela às vezes nos impõe. E, claro, ter o sorriso mais lindo do mundo pregado no rosto sempre ajuda.

*a publicação dos nomes reais foi autorizada pela Gisele, que inclusive corrigiu detalhes da história dos quais eu não me lembrava mais (não falei que ela é incrível?)

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Ana Lucia Coradazzi
Sou médica oncologista clínica. Há alguns anos decidi complementar minha formação através de uma especialização em Cuidados Paliativos, e desde então minha vida nunca mais foi a mesma. Aprendi que a morte não precisa ser tão triste, tão amarga. E que todo sofrimento pode ser amenizado através da empatia e do apoio incondicional. O convívio diário com pacientes portadores de câncer é algo tão valioso que, a meu ver, tem que ser compartilhado.