A faxineira Alline Parreira, se tornou um exemplo de superação internacional, na ultima sexta-feira (15), ela narrou sua história de vida para um colegiado de doutores na Universidade da Cidade de Nova York (CUNY)

Ela nasceu o município de Manga, sertão de Minas Gerais, na divisa com a Bahia. Segundo informações do site Brazilian Times, Alline foi adotada ilegalmente por uma mulher intersexual quando estava na barriga de sua mãe biológica.

Porém aos três anos de idade, essa mesma mulher a doou para uma mulher extremamente pobre. Mais tarde, ela ainda seria adotada pela mãe dessa mulher. Três adoções em um curto período de tempo bagunçam a saúde psicológica de uma criança, você deve imaginar.

Isso porém era só o começo de uma batalha ainda maior: contra o racismo e sua aceitação identitária como mulher negra, sem referência alguma nas famílias adotivas.

Ela conta que, para sobreviver, já catou latinhas, vendeu cigarros e vela em porta de cemitério, e, por fim, passou em um concurso para gari, que acabou sendo anulado. Com 18 anos, deixou a quente Manga e morou em Brasília (DF) e em outras cidades brasileiras.

Porém foi durante uma viagem à África, com uma bolsa oferecida pelo governo que Alline tornou-se a mulher negra que ela é hoje.

Há dois anos, decidiu mudar-se para Nova York, onde trabalha como faxineira. “Mudou meu rumo, e ampliou os meus horizontes, com conhecimento prático, de uma mulher negra viajando sozinha”.

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Apesar de não ter diploma superior, isso não significa que nunca teve contato com as universidades. Alline conta que passou em vestibulares em duas universidades brasileiras renomadas. A primeira foi a de Brasília (Unb), onde foi aprovada pelo sistema de cotas para o curso de gestão de agronegócios, mas acabou não se interessando e não chegou a fazer a matrícula.

Depois, foi aprovada para o curso de licenciatura em geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). “Eu só assisti a um dia de aula”, lembra. Mas, nesse caso, existia o pleno interesse de Alline em fazer o curso. O motivo da desistência foi a sua própria condição de vida. “Estava lutando pela minha sobrevivência. Tive que escolher entre estudar ou sobreviver. Preferi sobreviver”, acentua.

Alline Pereira explica que trabalha como faxineira em Nova York, nos Estados Unidos, por opção: “Foi uma escolha que fiz para este momento. O serviço de faxina aqui é muito mais valorizado. Faxineira ganha tanto quanto um médico”, disse. “Acordo às 7h, pego trem, volto para casa às 17h. Tenho disposição para ler, escrever e viver uma vida social. No Brasil, as faxineiras acordam às 5h para ir ao trabalho, pegam ônibus e chegam em casa às 19h. Chegam cansadas e o seu salário está muito distante do salário de um médico”, compara. “Fazer faxina é uma intelectualidade. Quando entro numa casa há toda uma ordem e sequência para realizar o serviço. Aqui não é igual ao regime do Brasil, que ainda é escravocrata. Aqui, uma faxineira ganha o mesmo salário que a classe média”, reitera.

“Quando relato minha trajetória, as pessoas se surpreendem. Vivi muitas opressões tanto da minha família adotiva, quanto na escola. Ninguém nunca esperou nada de mim.”

“Para nós, mulheres negras, não foi permitido narrar nossas histórias em primeira pessoa. Eu quebro esse paradigma, eu que conto minha história, para mim é muito importante”, afirma Alline.

A convite do Coletivo BradoNY, a mineira narrou sua trajetória em uma palestra documental, na CUNY University, com mediação do doutor Eduardo Vianna. A palestra mesclou poesia, oralidade e projeções de sua história, de quando morava no município de Manga até a vida em Nova York.

Informações: Razões Para Acreditar

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