Desde o dia que teve sua primeira menstruação Ashley*, teve que lidar com pensamentos suicidas. Porém quando chegou aos 42 anos ficou aliviada ao se submeter a uma histerectomia (cirurgia de retirada do útero).

Ela e sua filha Hilary*, de 15 anos, sofrem de uma forma grave da síndrome de tensão pré-menstrual (TPM), as duas desejam que a adolescente já passe agora pelo mesmo procedimento drástico para livrar a menina desse pesadelo hormonal.

Hilary, resolveu que não quer ter filhos, e está ressentida pelo fato de sua mãe não ter feito o mesmo.

“Minha mãe me deu algo com o que tenho que lidar nos próximos 40 anos”, diz a adolescente. Se Hilary realmente fizer a cirurgia vai ser a terceira geração da família a fazer uma histerectomia. A diferença é que não aos 30 ou 40 anos, como a mãe e a avó fizeram, e sim agora, aos 15 anos

A síndrome é tão severa que alimenta explosões de ansiedade, raiva, psicose e dores físicas debilitantes. As crises de ansiedade de Hilary, pioraram muito desde que começou a menstruar, e muitas vezes se pega “triste, com raiva e exausta”.

Tem sido um drama muito grande ir para escola, nos dias de crise ela não consegue ir, e não vê a hora de terminar as aulas.

“Lá eu não consigo me concentrar nos estudos e, quando estou com raiva, sinto que ninguém me entende. Ninguém mais parece estar passando por isso. Me sinto isolada”, diz.

Ela fica desesperada para que sua menstruação chegue logo, mesmo que ela tenha pânico disso.

“Eu me sinto decepcionada comigo mesma, choro de tão envergonhada, quase traumatizada”, descreve.

A solução de seu médico foi encorajar Grace a tomar a pílula anticoncepcional quando ela ainda tinha 13 anos. Mas ao tomar o medicamento, que contém uma alta dose de progesterona sintética, ficou violenta da noite para o dia.

“Isso tornou a vida realmente horrível para todos”, diz Hilary.

Um dia em um ataque de furia, seu irmão de 5 anos presenciou Hilary atacar Ashley e se escondeu dentro da dispensa.

“Espero que ele não se lembre daquele dia”, diz Ashley. “Hilary estava assustadora, muito assustadora.”

A mãe lembra o que aconteceu. A família estava almoçando quando alguém pediu que a adolescente mudasse de lugar. “Aquilo a tirou de órbita, e sem nenhuma razão”, diz. Sua fúria escalou, e a jovem acabou destruindo o banheiro.

Essa não era a filha que Ashley conhecia – ela descreve Hilary como sendo uma garota muito doce.

A pílula estava enchendo o corpo de Grace de progesterona – Elizabeth diz que ambas são hipersensíveis a isso, mas nunca ocorreu ao médico examinar os efeitos adversos de certos hormônios em profundidade.

Mas as coisas ficaram tão ruins que, dois dias após o Natal, a mãe se encontrou com o psiquiatra para conversar sobre colocar sua filha em uma clínica.

“Não porque ela não fosse amada e cuidada, mas para manter todos seguros”, explica.

No entanto, Ashley sempre sentiu que os problemas de sua filha estavam ligados ao seu ciclo menstrual. E quando ouviu, por acaso, uma conversa no rádio sobre trasntorno disfórico pré-menstrual (PMDD, na sigla em inglês), percebeu que todos os sintomas de Grace se encaixavam nessa síndrome.

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A garota agora está em terapia de reposição hormonal (TRH) bioidêntica, que é considerada uma terapia hormonal mais natural porque – como o nome sugere – utiliza hormônios que são quimicamente idênticos aos do corpo humano.

Esse tratamento parece estar ajudando, e hilary acredita que, se sua mãe não o tivesse descoberto, ela teria que sair de casa.

“Quando você fecha a porta, (sua casa) deveria ser o seu refúgio. Mas quando esse porto seguro se torna uma armadilha por causa da PMDD, é horrível”, diz Ashley.

O que é o transtorno disfórico pré-menstrual?

TPM grave/TDPM afeta de 5% a 10% das mulheres menstruadas e é frequentemente desencadeada por flutuações nos níveis hormonais

Algumas pessoas têm uma vulnerabilidade genética a essas mudanças. Pesquisas mostram que muitas vezes há um histórico familiar.

Embora os sintomas físicos sejam comuns, são os emocionais, como depressão, irritabilidade e agressividade, que levam aos maiores problemas.

TPM/TDPM pode afetar qualquer pessoa que menstrue, mas ocorre mais comumente durante a adolescência, quando os ciclos menstruais começam primeiro, e em quem tem mais de 35 anos

A histerectomia geralmente é um último recurso para TPM/TDPM e não é realizada facilmente, mas pode ser uma cura eficaz – as pacientes devem receber reposição de hormônios para garantir que os problemas da TPM não sejam substituídos pelos da menopausa.

Refém dos hormônios

A luta de Ashley só teve fim após passar por uma histerectomia aos 42 anos, após ela sofrer de graves dores pélvicas no período que antecedeu a menopausa. Ela teve seus ovários removidos também, e está em tratamento de reposição hormonal.

“Há uma suposição de que você vai se sentir menos mulher porque não tem um útero – mas eu não poderia estar mais feliz em me livrar dele”, diz.

“Eu acho que Hilary vai continuar a pedir uma histerectomia até que ela a faça aos 20, 30 ou 40 anos”, diz a mãe.

As diretrizes do Royal College of Obstetricians and Gynecologists, associação britânica de ginecologistas e obstetras, sugerem que, ao tratar mulheres com TPM grave, a histerectomia mostrou-se benéfica.

Hilary, porém, tem achado difícil que alguém levasse a sério seu pedido para a cirurgia. Segundo sua mãe, os médicos acham que ela mudará de ideia quando ficar mais velha.

Porém a garota não vê dessa maneira: “Não quero ter filhos porque não quero que eles passem o que estou passando”, diz

“Eu conscientemente condenaria alguém a viver com hormônios terríveis que fazem você se sentir deprimido e querer pôr um fim em tudo? Não, eu não faria isso.”

Mas isso significa que ela se arrepende de ter dado à luz a filha? Isso seria como desejar que Hilary nunca tivesse nascido, a mãe responde, algo que nunca faria.

Não foi fácil para Ashley conseguir a autorização para fazer a histerectomia, e agora sua filha enfrenta a mesma batalha.

Outros membros da família são totalmente contra a ideia de Hilary, estirpar o útero, por ela ser muito jovem. Mas a mãe sabe como é não acreditarem nela, e sabe como a vida pode ser diferente com o tratamento eficaz.

Tudo isso, ela diz, faz com que tenha forças para lutar pela filha de uma forma que ninguém lutou por ela.

“Eu não minimizo o que ela sente”, ela diz. “Ignorar seus sentimentos sobre seus hormônios e o efeito que eles têm em sua vida é também ignorar o quanto isso é ruim para ela.”

* *Os nomes foram trocados para proteger a identidade de mãe e filha.

Informações:G1

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