O sorriso virou gargalhada quando o estivador aposentado e guardador de carros João Carlos dos Santos, 70 anos, leu o “Bem-Vindos!” escrito na faixa de uma das entradas que dão acesso à 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega, na tarde desta terça-feira (05).

Definindo a possibilidade de passear no local como um presente adiantado de Natal, Santos foi à convite do Programa de Alfabetização de Adultos do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), do qual faz parte há um ano.

Até 2018, o homem que desistiu dos estudos no 1º ano do Ensino Fundamental para ajudar a mãe recém viúva, Inês, no sustento da família, não sabia ler o próprio nome. Nas recordações da infância, Santos rememora o trabalho na construção civil antes de completar 10 anos de idade. Por este motivo, o desejo de voltar aos bancos escolares foi ficando cada vez mais distante.

“Sempre me incomodou o fato de eu não saber ler o nome da linha do ônibus que eu pegava para ir ao trabalho”. Me sentia um cego confidenciou à repórter.

Retornar à escola se tornou algo possível quando, ao comentar informalmente com um cliente do estacionamento do Mercado Público (local onde cuida de carros aos sábados e domingos) o desejo de aprender a ler, foi incentivado a procurar as aulas gratuitas do CIEE. Do cliente, de quem ele não sabe o nome, ainda ganhou cadernos, caneta e lápis. Motivado, Santos comentou com os filhos a intenção, mas recebeu apenas desconfiança.

“Duvidaram que, durante a semana, eu trocaria a televisão pelos cadernos. Com o tempo, provei que era capaz. Hoje, eles têm orgulho de mim. Faço questão de dizer que a minha professora (Débora Westhauser) é o meu Deus na Terra e o CIEE, minha segunda casa” contou.

Santos ainda mareja os olhos ao lembrar da primeira palavra que leu sozinho: MÃE. Inês, falecida há cinquenta anos, veio logo à mente. Entre as descobertas, aprendeu que y e w também fazem parte do alfabeto e agora lê orgulhoso “Leopoldina”, o nome da linha de ônibus do bairro onde mora.

“Sabe uma descarga de alta-tensão? Nunca tomei um choque, mas acho que foi isso que senti quando comecei a ler. Ainda fico deslumbrado com cada palavra.” emocionou-se.

Antes de deslocar-se com os colegas para a Feira, Santos pode ler a colcha de retalhos formada com as palavras escritas pelos alunos e que simbolizam alfabetização para cada um deles. Em letras garrafais, o aposentado escreveu conhecimento. Surgiram outras no tecido, como esperança, aprender, acreditar, felicidade, liberdade e vida. Pensando naqueles que não teriam condições de ir às compras na Feira do Livro, os funcionários do CIEE doaram quase 400 obras, que puderam ser escolhidas pelos estudantes. Santos vasculhou cada uma das caixas e agarrou uma história em quadrinhos.

“Este vai comigo! Adoro a Turma da Mônica.” garantiu.

O aposentado ainda selecionou um livro de contos do escritor brasileiro Machado de Assis e um de sonetos, do poeta português Luis de Camões. Justificou já ter ouvido muito os nomes de ambos, e escolheu os livros para saciar a própria curiosidade.

Mesmo trabalhando a 500m da Praça da Alfândega, Santos revelou jamais ter conseguido coragem suficiente para cruzar os estandes devido à vergonha por não saber ler. Neste ano, porém, confiante, ingressou de peito estufado e sorriso largo no rosto. Até tirou o casaco que o acompanhava, pois sentiu calor e começou a suar frio.

“Vocês vão me matar do coração. Não sei se mereço tanto. Que presente!” repetia o aposentado às professoras do CIEE.

Encorajado a comprar o primeiro livro da vida, revirou algumas bancas com preços entre R$ 1 e R$ 10. Chegou a pegar uma obra que tratava sobre a Revolução Russa de 1917, mas achou que poderia ser uma leitura difícil para quem está desabrochando no mundo da leitura. Três bancas à frente, porém, ao ver a colega Hermínia Silva da Silva, 49 anos, escolhendo uma obra voltada às crianças, Santos teve a mesma ideia. Agarrou Janela da Poesia – Turminha do Peteleco, da escritora Ana Cecília Romeu, publicação direcionada aos alunos do 1º ao 2º ano do Ensino Fundamental, feita para ler, colorir, desenhar e ainda criar textos. Pensou em ler e brincar junto com os netos.

Empolgado, fez questão de falar em voz alta o primeiro parágrafo de cinco linhas: “Peteleco brinca com seus amigos todos os sábados no parque do bairro onde mora. Hoje está um dia ensolarado e quente. Duas amigas, a Carminda e a Bonequinha, chegam para se divertir junto com ele”. Escorrendo o suor pelas têmporas, trocou três palavras das frases, mas compreendeu o sentido do texto. Santos assegurou que devoraria os livros recebidos na tarde desta terça e celebrou como se já fosse Natal. Para ele, era.

Serviço:

O Programa de Alfabetização de Adultos do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) tem, atualmente, 134 alunos.
Para se inscrever é preciso ter mais de 14 anos.
Mais de 70% dos estudantes são adultos e idosos e chegam ao CIEE sabendo apenas escrever o nome.
O programa respeita o tempo de cada um. Por isso, as turmas são cíclicas e multisseriadas.
As aulas ocorrem de segunda a quinta-feira, com duração diária de 2h30min. Há turmas nos períodos manhã e tarde.
As matrículas são aceitas ao longo do ano.
Informações direto no local (Avenida Borges de Medeiros, 328, 8º andar, Centro) ou pelo telefone 3284-7099.

Via: Gauchazh

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