China ignora concreto moderno, resgata sabedoria ancestral da água e cria ‘cidades-esponja’ que reduzem enchentes, limpam rios e custam menos

Modelo urbano aposta em áreas verdes, pavimentos permeáveis e rios recuperados; iniciativa já mostra resultados contra alagamentos e ilhas de calor.

A China decidiu ir na contramão do urbanismo tradicional baseado em concreto, asfalto e canais de drenagem rígidos. Em vez de acelerar o escoamento da chuva, o país passou a absorver a água, inspirando-se em técnicas milenares de manejo hídrico. O resultado são as chamadas “cidades-esponja”, um modelo que vem reduzindo enchentes, melhorando a qualidade da água e até resfriando grandes metrópoles.

A estratégia combina conhecimento ancestral com soluções modernas e vem ganhando escala em dezenas de cidades chinesas, chamando a atenção de urbanistas e governos ao redor do mundo.

Como funcionam as cidades-esponja

O conceito é simples: permitir que a cidade funcione como um ecossistema natural. Para isso, projetos urbanos passaram a incluir:

Pavimentos permeáveis em ruas e calçadas;

Telhados verdes e jardins de chuva;

Parques que podem alagar temporariamente;

Lagos urbanos interligados a rios;

Recuperação de áreas úmidas e margens naturais.

Esses elementos permitem que a água da chuva seja absorvida, filtrada e armazenada, reduzindo a pressão sobre sistemas de drenagem tradicionais.

Menos enchentes, mais água limpa

Em cidades que adotaram o modelo, autoridades relatam queda significativa nos alagamentos, mesmo durante chuvas intensas. Em alguns casos, os sistemas conseguem reter mais da metade da água da chuva, evitando transbordamentos repentinos.

Além disso, o processo natural de infiltração ajuda a filtrar poluentes, melhorando a qualidade da água que retorna aos rios e lençóis freáticos.

Impacto direto no clima urbano

Outro efeito percebido é a redução das chamadas ilhas de calor. A presença de vegetação e água contribui para baixar a temperatura em áreas densamente urbanizadas, tornando o ambiente mais confortável durante ondas de calor.

Especialistas apontam que parques alagáveis e áreas verdes funcionam como “ar-condicionado natural” das cidades.

Custo menor a longo prazo

Apesar do investimento inicial, o modelo tende a custar menos do que obras tradicionais de contenção de enchentes. Estruturas verdes exigem menos manutenção do que canais de concreto e reduzem gastos com reparos emergenciais após temporais.

Segundo urbanistas, a economia aparece principalmente no médio e longo prazo.

Ideias antigas para um desafio moderno

O conceito não é totalmente novo. Civilizações chinesas já utilizavam lagos, canais naturais e áreas de absorção para controlar cheias há milhares de anos. A novidade está em aplicar esses princípios em larga escala, em cidades modernas e densamente povoadas.

Um exemplo para o mundo

Com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, o modelo das cidades-esponja surge como alternativa para países que enfrentam enchentes recorrentes e degradação ambiental.

Ao trocar parte do concreto pela natureza, a China mostra que conviver com a água pode ser mais eficaz do que tentar combatê-la — e que soluções do passado podem ajudar a resolver alguns dos maiores problemas urbanos do futuro.