Featured

VIVA O GORDO! – Fabrício Carpinejar

 

Na despedida de Chico Anysio, há 10 anos, perdemos um jeito de sorrir. Jamais recuperamos. Agora, com a morte de Jô Soares, assassinaram de vez a nossa gargalhada.

Jô Soares não era somente engraçado, também nos fazia pensar.

Você ria de doer a barriga e queimar o cérebro. Participava de uma catarse estranha, da iluminação de uma verdade velada do próprio comportamento. Ficava estremecido da descoberta, já querendo pedir desculpa pelas suas atitudes. Ele efetuava flagrantes de nossas mentiras educadas. Produzia arrependimentos instantâneos.

Foi uma raridade na cena televisiva, teatral e literária brasileira: um intelectual humorista, um pensador debochado. Criava personagens para combater preconceitos. Quem não se lembra do Capitão Gay, do Reizinho, do Zé da Galera?
Escritor de entretenimento saboroso, elaborava charadas e enigmas a partir de tramas policiais com figuras históricas, misturando ficção e realidade, como em O Homem que matou Getúlio Vargas.

Jô Soares representava uma orquestra inteira: era um showman, um aforista, um sátiro, um Oscar Wilde de óculos de aros coloridos, a televisão ligada nas nossas madrugadas. Queríamos dormir para trabalhar, e ele não nos deixava com a sua sagacidade. Permanecíamos acordados até tarde por culpa dele. Acumulávamos insônias por mérito dele, hipnotizador de multidões.

Durante décadas, conduziu o melhor programa de entrevistas. No seu talk show, demolia qualquer embuste com o seu sarcasmo ou reconhecia todo puro talento com a sua generosidade.

Possuía um raciocínio impressionante, veloz, surpreendente, assombroso de tanta lucidez. Seu pensamento corria com câmbio automático enquanto a maioria trocava suas ideias com marcha manual.

Só ele podia engolir a música com a mão. Só ele podia arrancar uma confissão com os olhos carentes. Só ele!
Tendo ao fundo a cumplicidade do seu Sexteto, transformava memória em jazz, dançando datas e acontecimentos remotos com as últimas notícias.

Improvisava porque tinha cultura, uma enciclopédia de gravata borboleta.

Dominava cinco idiomas: português, inglês, francês, italiano e espanhol, além de conhecimentos de alemão. Mas, acima de tudo, falava a língua da rua, traduzindo a nossa indignação com causos e anedotas.

Ele, que nasceu em janeiro de 1938, era sempre o nosso Ano-Novo. Perdemos a graça do Réveillon, nosso brinde de caneca, nossa guinada de vida. Quem nos inspirava a transformar dificuldades em aprendizado. Perdemos o nosso exemplo de alegria. Perdemos a nossa festa da inteligência.

AAAAHHHH…
Viva o Gordo, nossa alma transbordando.

Leia a minha coluna no jornal Zero Hora, GZH, 5/8/2022:
https://gauchazh.clicrbs.com.br/…/viva-o-gordo…

Saber Viver Mais

Viva Mais! Viva Melhor!

Recent Posts

EXPLODIU NA NETFLIX! Série eletrizante de suspense e investigação se torna a mais assistida do momento e conquista o público.

A trama acaba de chegar ao catálogo da Netflix trazendo uma combinação intensa de suspense,…

19 horas ago

ALERTA DOS CIENTISTAS: Refrigerante pode prejudicar o fígado mais rápido que o álcool — e muita gente não sabe!

Estudo alerta que consumo excessivo de refrigerante pode causar danos ao fígado semelhantes aos do…

3 dias ago

Não ter amigos é normal? O que a psicologia revela sobre quem vive sem vínculos próximos

O que significa não ter amigos, segundo a psicologia? Não ter amigos pode ter significados…

3 dias ago

Frases que pessoas emocionalmente esgotadas costumam repetir, segundo a psicologia

“Não aguento mais”: as Frases que pessoas emocionalmente esgotadas costumam repetir, segundo a psicologia O…

3 dias ago

Anvisa proíbe fabricação e venda de café após identificar irregularidades sanitárias

Anvisa proíbe fabricação e venda do “Café de Açaí” da marca Du Brasil após identificar…

4 dias ago

URGENTE: Rússia anuncia vacina contra o câncer com 100% de eficácia e diz que já está pronta para uso clínico

O que a Rússia anunciou A Agência Federal Médico-Biológica da Rússia (FMBA) afirmou que uma…

4 dias ago