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Nossos astronautas – Fabrício Carpinejar

Por: Fabrício Carpinejar

Os profissionais de Saúde não estão no mesmo mundo que nós. Por mais que tenhamos lutos e privações durante o período da epidemia, eles vêm experimentando mais de nove meses de terror. Nenhuma residência universitária previa tal estafa, tal esgotamento de forças, tal dedicação desumana.

Não se encontram no limite, ultrapassaram e muito qualquer limite.

Na linha da frente de combate ao coronavírus, não há rotina possível. Chegam a emendar vinte e quatro horas de plantão, sem tempo de ir ao banheiro e beber água, com o intervalo de almoço reduzido. Nas folgas, acabam assumindo escalas de colegas que adoeceram.

É como se fosse uma guerra, acidentes aéreos diários, bombas explodindo em todo o canto da cidade, tendo que lidar com falta de respiradores, de leitos, de equipamentos pelo excesso de contingente.

Seus olhos estão cansados de despedidas. Em um ano, testemunharam a morte de pacientes de uma carreira inteira.

Já viram 180 mil falecimentos passando pelos suas mãos, já tiveram que dar a notícia do fim para 180 mil famílias.

Empenham uma viagem com as naves de seus próprios corpos além da barreira do grito. Flutuam numa dimensão paralela, envelhecendo mais rápido do que o normal.

São astronautas dentro das UTIs, em gravidade que não é a mesma da nossa, socorristas intermináveis do desespero, em cápsulas longe de suas famílias, não tendo a quem recorrer para desabafar.

Assim como no espaço, não podem chorar, as lágrimas não caem: bolhas líquidas.

Dependem unicamente do movimento do olhar para repassar confiança a seus pacientes e chamar a alma de volta. Não existe como oferecer abraço, cumprimentos, carinho.

Devido ao isolamento, precisam se preocupar com o emocional do internado, em manter a conexão afetiva dele com o seu lar, a partir de videochamadas de celulares e tablets.

Nem uma evacuação do prédio mostraria igual rigor do protocolo de segurança, marcado por quinze minutos para se higienizar e vestir o traje especial, com óculos, gorro e máscara.

Enfrentam a mais letal carga viral, a COVID em seu auge. Quando são infectados, sobram menos chances de resistir. Cerca de 1% do nosso total de vítimas é de médicos, enfermeiros, técnicos e agentes que tentaram salvar a vida de alguém e não priorizaram a sua sobrevivência.

Não são apenas heróis, serão lembrados como lendas. De uma galáxia desconhecida chamada coragem.

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