Por : Leandro Carnal
Quanto mais fundo se desce, maior o sofrimento. A ideia está no Inferno da Divina Comédia. Há uma referência religiosa da culpa. No terceiro círculo do Inferno ( e na sexta cornija do Purgatório) estão punidos os gulosos.
O mais importante é tomar consciência do próprio pecado. Trimagasi matou alguém e optou por aquela pena no poço. Goreng busca certificados, uma espécie de esforço de meritocracia e de competitividade. Ao contrário de Dante, existe mobilidade no Inferno e isso permite que opressores sejam oprimidos.
A experiência da dor da fome pouco ou nada ensina aos apenados.
Existe um mundo de planejamento, tecnocrático e muito elaborado. Na entrevista, perguntam sobre alergias e cuidados. Na cozinha luxuosa, a apresentação é tudo e a qualidade e higiene é rigorosa. Na prática, todo o planejamento (estatal?) resulta inútil e em desastre. Quem organiza a seleção e a alimentação não possui visão do todo.
A mesa volta sempre sem nada e isso pode ser lido na cozinha como êxito da culinária. Se a panacota voltar intacta, isso pode ser uma mensagem de que algo não funciona. A funcionária que trabalhou 25 anos na seleção também diz nada saber. Existe uma síndrome de Eichmann e do mal banal. Quem pensa o modelo não sabe como ele funciona e quem sofre o planejamento não tem acesso aos que elaboram tudo. Todos cumprem ordens.
O filme é anterior ao coronavírus mas serve perfeitamente ao momento. Tenho de me salvar, comprar o máximo possível, salvar a mim. Pouco ou nada me importam os outros. Assim, como no filme, a teoria de Hobbes supera a de Rousseau: a natureza humana é má e egoísta.
Uma criança seria a esperança? Um bom selvagem? Existiria de verdade ? Só a ameaça educa (“vou defecar na sua comida”) e só funciona para baixo. Não existe bom-senso, apenas ameaça. É o mundo hobbesiano que precisa de Estado forte.
Em plena epidemia, é o Estado (democrático, por sinal) que está ditando regras de controle cada vez mais amplas. Para salvar a vida, abrimos mão da liberdade e da própria humanidade. Só queremos viver. Todo o resto é secundário. O sucesso do Poço não é acidental.
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